Acenderei as luzes
se necessário.
Enquanto seu corpo pesado
e cansado se ajeitar,
trarei o café.

Irei comentar sobre a vista,
que linda.
E você não dará atenção,
como sempre.

Calada, retornarei.
E você continuará calado,
como sempre.

Com relutância,
os dois corpos mudos
sairão à manhã ensolarada.

Comentários supérfluos
serão ignorados.
Toda a preocupação
será ignorada.
Todo o amor
será ignorado.

Só o prazer, talvez,
receba atenção.
Mas não foi pra isso que me casei.
Que me casei, não.
Não foi pra isso que casamos.

Já convivi com pessoas como você.
Sempre com um sorriso fino de descontentamento
só reagem à televisão
absorvem alguma pouca cultura
tomam café e fumam cigarro
não fazem amigos
e vivem reclamando da vida.

Quando você e seus iguais
resolverem mudar,
desta vez,
acabarão se revelando
pro nada.

Não estarei mais aqui.

raphael ramos, graça

(Source: ultra-modernismo)

(Source: haialispector, via hiperbole)

Sou rouca,
sou louca,
estou boêmia.

Quero um pó
quero um pé
quero uma mão,
um braço,
um corrimão
que não me deixe cair

nem esbarrar em você,
cara bacana, legal
segura meu copo de conhaque faz favor…

tranquei letras
quero roubar um fusquinha
cheirar no volante
duma combi Tarantino
viver como livro circulante
nesse bar libertino
e divagar sobre
Fernando Pessoa
poliamor francês
Mário Quintana
ou Thiago Lacerda
e o freguês
do balcão
que tá ali no chão
chafurdado na merda…

raphael ramos, bar nº 567

(Source: ultra-modernismo)

(Source: fueledbywhisky)

Madalena está estranha
não conversa com os amigos
anda esquecida que só…

Não faz mais as lições
anda murmurando por aí,
falando sozinha, coitadinha…

Avoada, seus cabelos ressoam
a calma de seu olhar, puro e santo
sempre fresco
como uma recente manhã…

Madalena anda falando de Deus
de anjos, milagres, recita salmos.
Madalena para na rua pra rezar
vai na igreja aos sábados
paga o dízimo e louva o senhor…


Me lembro de quando Madalena falava comigo.

Éramos melhores amigos,
falávamos da vida, de coisas terrenas
cultivávamos um belo caminho
meio simples, mas francamente feliz.

Éramos crianças tão puras.
Não conhecíamos a realidade da vida,
que Madalena ainda desconhece.

Madalena nunca cresceu,
nunca sofreu, nunca chorou.
Suas lágrimas secaram e voaram pro céu
providas de asas e carentes de realidade.

Madalena, em que caminho você se meteu, querida amiga?
Cadê aquela menina que ria e falava de tudo sem vergonha
sem pontuar frases com perdões ao senhor…?

Tua alma já morreu e subiu aos céus!
foi teu corpo que esqueceu de acompanhar…

raphael ramos, madalena

(Source: ultra-modernismo)

(Source: facebook.com, via woolyjumper)

(Source: islityourthroat, via abscencium)

(via lamortalite)

“Nos teus ouvidos
eu falaria de amigos.

Quem sabe se amarias escutar-me.”
- Hilda Hilst

Sussuros não sustentam mais
nenhuma conversa, nenhum apelo
os lençóis estão cansados de minhas lágrimas
a tristeza me chama toda manhã.

Submissa.

Prestativa, ignoro o passado
em busca de um tolo futuro incerto
confio em ti mais uma vez
embora nem eu mais acredite.

Ingênua.

A agressão me arde quando estou só
embora o sorriso disfarçado com pó
brilhe na mesa reunião social.

Orgulhosa.

Não reconheço meus erros
em troca de ameaças, confusão
roupa suja, louça quebrada
nenhum dinheiro no bolso e dois filhos na mão.

Abandonada
pela vida.

Esquecida
pelo passado
nunca busquei um futuro.
Meu presente se apresenta inseguro.

Incerto.

sofia, sofismos

(Source: ultra-modernismo)